terça-feira, 17 de abril de 2012

Porto de Santos, lar de animais abandonados


O tráfego de navios e a movimentação de cargas não são mais as únicas preocupações da Codesp no Porto de Santos. Desde o ano passado, a Docas abraçou efetivamente uma nova causa e passou a cuidar daqueles que são considerados grandes amigos do homem, em especial dos guardas portuários: os animais. Com um número cada vez maior de cães e gatos perdidos ou abandonados no cais santista, a estatal desenvolveu ações para melhorar as condições de saúde desses bichos.

Nas proximidades da Avenida Perimetral, ao lado do Terminal de Passageiros, nos gates (portões de acesso) ou no meio das ruas, hoje é comum encontrar cachorros e felinos vivendo entre trens, caminhões e até mesmo navios. Para funcionários da Codesp que acompanham o aumento no número de animais domésticos habitantes do cais, é difícil saber se eles foram deixados no complexo por seus donos ou nasceram ali.

Essa incerteza é compartilhada pelo médico veterinário da Docas, Eduardo Odani Sigahi, que integra parte da equipe de auxílio a animais da companhia há cerca de seis meses. Apenas quando aparece algum com raça definida ou com coleira, fica mais fácil identificá-lo como abandonado.

Como o trabalho da estatal é recente, não há como fazer comparativos e constatar o percentual de aumento no número de animais abandonados. Mas de uma coisa, o veterinário não tem dúvida: o Porto não é o local ideal para cães e gatos. Diante do cenário, as histórias não costumam ter um final feliz.
“Encontramos em torno de dois animais novos por mês, mas nem todos se fixam. Muitos são expulsos pelos próprios animais que habitam a área”, disse Sigahi. Ele acredita que a lei proibindo a eutanásia de bichos sadios favorece o aumento deles no Porto.

Segundo Eduardo Odoni Sigahi, muitos cães e gatos largados no complexo são atropelados por caminhões e não sobrevivem, principalmente aqueles que estavam acostumados a viver em casas ou apartamentos. “O Porto não é o local ideal para eles viverem. Aqueles estabelecidos possuem em geral bom estado de saúde, mas temos casos de animais que chegam magros, sarnentos, acidentados e necessitando amputar membros. Tenho fotos de animais estraçalhados”, diz o veterinário.

Mesmo sabendo das consequências para seus cães e gatos, alguns donos ainda escolhem o Porto como local para se livrar dos animais. Amplo, o cais santista oferece o anonimato desejado para essas ações e evita que os bichos consigam retornar a seus antigos lares. Os mais maldosos escolhem o complexo para medidas mais drásticas. “Um animal foi amarrado no vagão de um trem. Chegou a ser resgatado, mas teve que ser sacrificado”, lembra-se Sigahi.

Iniciativa

Em meio a casos de crueldade, a Codesp tem buscado, ao longo dos últimos meses, oferecer melhores condições aos 53 cães e 31 gatos – os felinos podem chegar a 100 – que residem nas margens Direita e Esquerda (Guarujá) e na Ilha Barnabé.

Todos foram cadastrados pela Docas e, em seguida, vacinados, castrados e receberam atendimento médico. O objetivo é evitar a proliferação dos mamíferos. Há ainda a preocupação com a saúde pública, Tais cuidados minimizam o risco de transmissão de doenças, mencionou o veterinário.

“Normalmente, somos avisados por técnicos de operações portuárias, que caminham pelo Porto, quando há algum animal machucado”, diz o veterinário.

As cirurgias de castração e as consultas de urgência são feitas na ONG Defesa da Vida Animal, presidida pelo vereador de Santos Benedito Furtado (PSB). O trabalho da Docas também tem o apoio de veterinários protetores. Ao todo, 45 cães já foram vacinados e 21 castrados. Em relação aos gatos, foram 28 castrados e 15 vacinados. São realizadas de três a quatro castrações por semana.

“A castração é feita após a avaliação da higidez (estado de saúde) e da idade dos animais. Os idosos não são castrados e os doentes são submetidos à cirurgia somente depois da verificação de suas condições”, explica Eduardo Sigahi. Os animais são capturados na véspera da cirurgia para passarem por um jejum de 12 horas.

O pós-operatório dos animais (quando recebem antibióticos, antiinflamatórios e alimentos) ocorre na própria Codesp, sob os cuidados do especialista. “Assim que estiverem aptos, são liberados no mesmo local onde foram capturados”, destaca Sigahi, lembrando que muitos cachorros e gatos já foram castrados antes da Codesp iniciar a ação.

“Por algum motivo, os cuidadores já haviam levado os animais para que fossem castrados”, completou o veterinário, referindo-se a trabalhadores do Porto que acolhem animais.

Devolução

A Codesp devolve os animais ao Porto, após serem castrados, como parte de uma estratégia para reduzir a capacidade reprodutiva dos bichos que vivem no cais, explica Eduardo Sigahi. Além disso, a companhia ou mesmo a ONG não tem estrutura para abrigar cães e gatos.

“O embasamento para esta metodologia é o de que animais castrados irão competir pelos mesmos nichos ecológicos (água, alimento e abrigo) que os não castrados, reduzindo a capacidade reprodutiva dessa população até atingirmos a totalidade de esterilização desses animais”, detalha o médico veterinário.

A equipe de A Tribuna chegou a acompanhar a devolução de três gatos a seu habitat na última sexta-feira. Após serem castrados e passarem pelo pós-operatório, os felinos foram soltos no estacionamento da Autoridade Portuária.

A adoção também é uma alternativa adotada pela Codesp para reduzir a quantidade de animais no Porto. No entanto, a medida é válida apenas para os bichos mais jovens e dóceis. “Os mais antigos não vão querer sair da área e há pouca aceitação da população por cães e gatos adultos”, esclarece o veterinário. Este ano, foram adotados apenas nove animais.

“Fazemos a divulgação por redes sociais e através do boca a boca com empregados e amigos”, explica Sigahi, que pretende levar os animais para a feira de adoção do Movimento de Apoio aos Protetores de Animais e da Natureza (Mapan), realizada aos finais de semana, no Gonzaga.

Fonte: A Tribuna/Lyne Santos

Nenhum comentário:

Postar um comentário

verdade na expressão