terça-feira, 2 de abril de 2013

Os chimpanzés colaboram uns com os outros, tal como nós


Os chimpanzés ajudam o próximo quando dependem dele para atingir um objetivo. (Foto: Mark Bodamer)
Usam ferramentas, com que partem nozes ou apanham térmitas. Fazem e desfazem alianças. Matam-se. São altruístas e também se ajudam.
Em alguma parte na evolução, os antepassados dos humanos souberam que há tarefas que só são feitas a quatro ou mais mãos. Mas quando se seu deu este salto? Nos chimpanzés podem encontrar-se algumas pistas: uma equipe de cientistas verificou que, tal como nós humanos, a ajuda entre chimpanzés existe e defende que esta capacidade terá surgido num antepassado comum às duas espécies, antes de se separarem na evolução há mais de seis milhões de anos.
Já se tinha testemunhado chimpanzés na natureza a cooperarem. Eles fazem coligações e alianças e utilizam-nas para expulsar e até matar outros chimpanzés estranhos ao grupo. Mas não se tinha demonstrado se realmente existia trabalho organizado ou se as ações eram apenas um somatório de esforços de cada um.
Há várias experiências que revelavam certas limitações dos primatas – por exemplo, durante tarefas em que necessitavam de desempenhar dois papéis com diferentes funções, os chimpanzés começavam a fazê-las sozinhos e não esperavam por outro chimpanzé que estivesse presente. Por outro lado, mostravam não ter aprendido com o outro chimpanzé quando ele desempenhava a outra função da tarefa e os papéis eram trocados. E quando estavam a cooperar com um humano, e este deixava de fazer a sua parte da tarefa, os chimpanzés não tentavam comunicar para que a completasse e procuravam levá-la a cabo sozinhos.
Por isso permaneceu a dúvida sobre até que ponto é que os chimpanzés compreendiam o trabalho em equipe. “Sabíamos que os chimpanzés cooperavam na natureza, mas este estudo mostra que há mais cognição por trás das suas ações do que pensávamos”, diz ao PÚBLICO Alicia Melis, do Instituto Max Planck em Leipzig, na Alemanha, co-autora do artigo da revista Biology Letters.
O trabalho experimental decorreu no Santuário de Chimpanzés Sweetwaters, no Quénia. As experiências envolveram uma caixa transparente embutida numa grade a separar duas salas. Dentro da caixa estavam uvas, o grande objetivo dos chimpanzés. As uvas encontravam-se na parte de cima da caixa e tinham de ser arrastadas até uma armadilha, que se abria premindo um gatilho na parte de baixo da caixa. Quando as uvas caíam, era possível apanhá-las através de buracos nos lados da caixa virados para cada sala.
Por isso, era necessário fazer duas tarefas. Primeiro, as uvas que estavam na parte de cima tinham de ser arrastadas – o que só era possível a partir de uma das salas, usando um pau fininho que passava entre o gradeamento da caixa. Depois, para abrir a armadilha, era preciso usar um pau maior e mais grosso, que se introduzia num buraco na parte lateral da caixa e permitia empurrar o gatilho. Mas este buraco só estava acessível a partir da outra sala. Assim, era necessário que cada primata em cada uma das salas tivesse o pau correto para concluir a sua tarefa.
Nas experiências, colocaram-se 12 chimpanzés aos pares, cada chimpanzé ficou numa das duas salas separadas pelas grades e pela caixa transparente. Um dos chimpanzés ficou com os dois paus e tinha de dar o pau correto ao outro chimpanzé para que os dois pudessem realizar a tarefa e comer as uvas. Dez dos 12 chimpanzés resolveram o problema e deram o pau correto ao parceiro em 73% das tentativas.
“Os dez indivíduos chegaram à conclusão, a certa altura, de que o desafio não ia resultar sem o parceiro. Indivíduos diferentes deram o pau em alturas diferentes do estudo: alguns foram rápidos, outros fizeram-no depois de terem alguma experiência”, explica a cientista.
Mas depois de completarem o exercício pela primeira vez (e com isso ganharem as uvas), fizeram-no sempre. Para Alicia Melis, os chimpanzés mostraram que sabiam que os seus parceiros precisavam realizar uma tarefa determinada e, para isso, necessitavam de uma determinada ferramenta – o pau fino ou o pau grosso – e ajudaram o parceiro ao dar-lhe a ferramenta correta.
“Este comportamento pode ser egoísta, porque o que eles queriam era as uvas. Mas perceberam que têm de ajudar o outro para se ajudarem a si próprios, as suas ações estão interligadas”, diz a cientista. “Estas capacidades são partilhadas tanto pelos chimpanzés como pelos humanos, por isso poderão ter estado presentes no antepassado comum antes de terem evoluído as formas complexas de colaboração nos humanos.”
Fonte: Público

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